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sexta-feira, 16 de março de 2012

Napalm Death - Utilitarian



Artista: Napalm Death
Álbum: Utilitarian
Data de lançamento: 27 Fevereiro 2012
Género: Grindcore, Death Metal
Editora: Century Media Records
Lista de faixas:

1 – “Circumspect”
2 – “Errors in the Signals”
3 – “Everyday Pox”
4 – “Protection Racket”
5 – “The Wolf I Feed”
6 – “Quarantined”
7 – “Fall on Their Swords”
8 – “Collision Course”
9 – “Orders of Magnitude”
10 – “Think Tank Trials”
11 – “Blank Look About Face”
12 – “Leper Colony”
13 – “Nom de Guerre”
14 – “Analysis Paralysis”
15 – “Opposite Repellent”
16 – “A Gag Reflex”

Já se passaram 25 anos desde que o álbum “Scum” saiu ao mundo e agarrou a música extrema pelos tomates, mudando-a permanentemente e apresentando um género influenciador que garantiria um local privilegiado aos Napalm Death na árvore da evolução da música pesada. Aquilo que hoje conhecemos como o “Grindcore” foi apadrinhado por este grupo Britânico e desde então que muitos bons grupos apareceram a tocar o tal dito cujo, mas nunca ninguém que o fizesse tão bem como os Napalm Death.

A carreira do grupo avançou sem afrouxamentos e hoje é o dia que os membros da banda andam na casa dos 40 mas com tanta ou mais garra do que quando começaram. Iniciaram-se há umas décadas atrás com um som brutal de influência Punk envernizado com um Death Metal do mais extremo. Seguiu-se uma década de 90 mais experimentalista com entradas de Groove, Thrash e outros que foi permitindo à banda mexer-se sem se sentir presos mas sem se deslocarem para muito longe. Hoje simplesmente fundem as duas eras e aparecem-nos com este “Utilitarian” a soar a uma banda severamente irritada. E danados sejam eles se quem ouvir não acaba tão irritado como eles.

É nessa raiva que reside o principal ponto de partida para qualquer álbum de Napalm Death: riffs estonteantes de partir pescoços, a rapidíssima bateria tão maltratada e bem tratada ao mesmo tempo e uns rugidos ou ladrares reconhecíveis de Barney Greenway, com canções directas ao assunto. E nisso são sempre competentes, nunca falham em transmitir uma violenta dose de brutalidade na sua música e nas suas letras com escarradelas políticas capazes de abrir forçosamente os olhos a quem ouve.

O que ainda torna este “Utilitarian” ainda mais fascinante é o facto de que hoje em dia nem se pedia mais que isso para termos o que queremos deles, já não têm absolutamente nada a provar visto que já sabemos bem quem eles são e o que eles bem fazem. Mas mesmo assim lançam-se a uns interessantes experimentalismos que ainda engrandecem mais a banda em vez de parecer algo descabido – também não há nenhuma fuga para qualquer território. Pode-se dizer que eles não se deslocaram do seu sítio para ir buscar outras influências, elas é que foram ter com eles.

Exemplos disso podem ser aquele doido solo de saxofone que se ouve em “Everyday Pox” que ajuda a tornar a faixa única – o que não se estranha é o portador do saxofone, John Zorn, um homem que já tem alguma experiência em embelezar obras extremas. Outro exemplo e este ainda mais surpreendente. Já todos sabemos e reconhecemos a voz gutural de Greenway, o que talvez nunca esperássemos era ouvi-lo a cantar limpo! Pelo menos dentro dos possíveis, sem amaricar muito a coisa, até pelo contrário. A experiência semi-cantada de “The Wolf I Feed” para além de surpreender também consegue dar ainda mais garra e bastante feeling de Punk ao tema. Outro apontamento será também a utilização de uns bizarros e obscuros coros gregorianos em temas como “Fall on Their Swords” ou “Leper Colony” que quase lhe dão uma atmosfera gótica se não se tivesse adequado tão bem à brutalidade de assinatura da banda, que nem um traseiro a instalar-se na marca deixada num sofá após anos de uso contínuo no mesmo local.

Mas são apenas mais uns toques, umas quantas cerejinhas para colocar no topo do bolo que já era delicioso como estava ao termos temas tão directos e espontâneos e ao mesmo tempo tão técnicos, como os Napalm Death bem sabem fazer. Porque após a introdução instrumental “Circumspect” – que por si só já acaba também por ser uma experiência – que já estamos prontos para o enxerto de porrada e valente carga de lenha que levamos assim que “Errors in the Signal” irrompe pelos nossos ouvidos dentro. E assim se mantém ao longo dos seus curtíssimos 45 minutos. E assim que conclui o delicioso riff final de “A Gag Reflex”, que o nosso primeiro instinto e vontade é o de voltar ao início.

Vinte e cinco anos e não tarda nada, as três décadas de carreira que tão gloriosas se podem considerar já estão ao virar da esquina. E os Britânicos ainda com a mesma fúria, garra e agressividade com que surpreenderam o mundo da música extrema com a sua brutal abordagem singular e exclusiva. O que não é debatível aqui é o facto de os Napalm Death terem-lhe perdido o jeito com os anos, ninguém pensa tal. O que pode dar que pensar é se por acaso eles não estão ainda melhores. Porque hoje em dia por muito boas ou curiosamente engraçadas que possam ser algumas bandas de Grindcore, ainda não há outra banda que o faça com tanta brutalidade e ao mesmo tempo tanta classe como os Napalm Death. E é mais uma banda cuja passagem pelo nosso país já constará com certeza na agenda de muitos headbangers nacionais…

Avaliação: 8,7


sábado, 15 de janeiro de 2011

[Clássico do Mês] Alice Cooper - Love It to Death


Artista: Alice Cooper
Álbum: Love It to Death
Data de lançamento: 12 Janeiro 1971
Género: Hard Rock, Garage Rock, Heavy Metal, Rock Progressivo, Shock Rock
Editora: Straight Records, Warner Bros. Records
Lista de faixas:

1 – “Caught in a Dream”
2 – “I’m Eighteen”
3 – “Long Way to Go”
4 – “Black Juju”
5 – “Is It My Body”
6 – “Hallowed Be My Name”
7 – “Second Coming”
8 – “Ballad of Dwight Fry”
9 – “Sun Arise”

Ousadia, genialidade, controvérsia, influência. Apenas exemplos de palavras que nos vêm à mente quando pensamos no Sr. Alice Cooper, um senhor que decide levar a sua carreira com nome de mulher. Também levou a sua carreira através da construção de geniais álbuns icónicos, míticos e marcantes da geração, a criação de um estilo de Rock teátrico e chocante, e com a sua habilidade de escrever as suas tenebrosas e macabras histórias de terror sádicas, que por vezes gostava de inserir em álbuns conceptuais – veja-se o caso do mais recente “Along Came a Spider”. Em 1971, com o seu “Love It to Death”, Cooper e a sua banda que levava o mesmo nome ainda davam os seus primeiros passos e este era ainda o terceiro álbum, apenas. Os gigantes “Killer”, “School’s Out” e “Billion Dollar Babies” viriam depois, mas foi com “Love It to Death” que o “monstro” se começou a desenvolver de forma notável. A sua ousadia valeu-lhe bastantes repreensões e olhares de lado de pais mais conservadores que consideravam a sua arte imoral. A capa do álbum mereceu uma censura pelo escandaloso dedo de Cooper a sair-lhe da braguilha das calças. Demais para aquele tempo. Os seus espectáculos repletos de efeitos especiais, teatro e actos que enlouqueciam alguns da audiência – desde o abuso e desmembração de bonecas à famosa e frequente cena da guilhotina que deve ter enervados uns quantos fãs, quando viram a cabeça de Alice Cooper a ser “cortada” pela primeira vez. Era de facto, um artista à frente do seu tempo, mas repare-se que eu ainda não me referi à música. Então, ele era só um artista de imagem, que mal se lembrava de fazer música inicialmente? Claro que não, se há alguém que sabe acompanhar bem a sua imagem com excelente música, esse é Alice Cooper e a sua banda. “Love It to Death” foi o disco que ofereceu mais exposição da banda ao mainstream, afastando-se um pouco da sonoridade psicadélica e progressiva com que se estrearam e dando passos mais largos no campo do Hard Rock regado com um pouco do recém-chegado Heavy Metal, mantendo ainda traços da sonoridade anterior. Disco que ainda consegueu fornecer à banda o seu primeiro hit a sério, e a sua primeira “signature song”: “I’m Eighteen”. Uma das 4 músicas que eu destaco neste disco, para fazer uma breve descrição muito rapidamente sobre porque é que este álbum é tão bom. “I’m Eighteen” é daquelas canções que marcaram bem a sua geração, com letra escrita directamente ao público, um riff imediatamente reconhecível à sua primeira nota, e que pode dar origem a um grito de guerra, se quiserem: “I’m eighteen and I like it!”, se o souberem dizer com a mesma garra e intensidade que Cooper. De seguida, “Long Way to Go”, é uma das músicas que mais me fica presa, com a sua estrutura simples. O riff é facilmente memorável e consegue ser até, bastante dançável. Refrão básico construído à volta de um verso só, que se torna mais fácil para qualquer um de nós para o cantar enquanto acompanhamos a música, seja em casa a ouvir o disco, ou num concerto a saltar de punho no ar. E a sua influência, porque o seu riff não deixa de me fazer lembrar riffs de bandas recentes de Indie Rock ou dos “revivals” do Post-Punk e do Garage Rock. Posso estar errado, no entanto. “Black Juju”, com os seus 9 minutos de duração é uma das músicas que creio que se aproxima mais da sonoridade psicadélico-progressiva dos 2 primeiros discos. São 9 deliciosos minutos de música enigmática com um toque obscuro. Instrumentalização a salientar. E finalmente, aquela que acho que seja a canção que mais marca o disco, “Ballad of Dwight Fry”, uma balada emocional que passa por introdução “spoken”, com uma voz de criança a perguntar “Mommy, where’s daddy?”, estrutura acústica de canção calma e melancólica, refrão a roçar o épico, com intensidade suficiente para fazer desta uma daquelas baladas arrepiantes, um solo de babar por mais e a perturbadora parte em que Alice grita desesperadamente “I gotta get out of here!” que funciona como cereja no topo do bolo, para ficar uma perfeita “dark ballad”, que pela sua estranheza ao ouvir, se torna tão linda de ouvir. Apenas destaquei estas 4 porque creio que são as que melhor se destacam, porque as outras 5 são óptimas para ter um disco completo e bem preenchido de excelente música. O disco todo em si, ao ser ouvido, funciona como uma esplêndida viagem no tempo, mas de certa forma a manter-se na mesma tão actual, tão fresco, tão belo. É certamente, um fascinante álbum da década de 70 ou até, de sempre. E duvido muito que os fãs de Hard Rock e de Alice Cooper discordem.